9 de março de 2008

A Marcha da Indignação

Apesar de não ter participado na Marcha da Indignação, não posso deixar de solidariezar-me com os milhares de pessoas que sairam à rua num protesto claro contra as políticas governamentais no que concerne a Educação.

A Educação foi, e creio que sempre será, um dos sectores mais polémicos dos governos, independentemente da área ideológica.
Educar é o que mais de difícil se depara com o seu humano.
Educar, na perspectiva do educador é um conceito diferente daquele que é perspectivado por quem é alvo dessa educação.
Educar é um conceito de cidadania.
Educar é saber perspectivar uma vida em comum, em sociedade.
Educar, começa no berço.
Educar é colocar limites; impor regras; explicar regras; partilhar experiências; emitir opiniões; dar a conhecer conceitos; discutir conceitos e formas de vida; aprender e ensinar...
Educar é um conjunto de direitos e deveres que, por vezes, não são conhecidos ou não são assimilados ou interiorizados ou aplicados pelo conjunto de pessoas que vive em comunidade.
Educar é respeitar os outros e exijir ser respeitado.
Educar é...

A Constituição da República Portuguesa diz que a educação é um direito de todos os cidadãos. Aliás, como todas as Constituições. Aliás, como está explícito na Declaração Universal dos Direitos do Homem (e da Mulher e das Crianças), princípios emanados dos filósofos das Luzes. Nos séculos XVII e XVIII, generalizou-se, entre os "pensadores" (chamemo-lhes assim), destacando-se o meu querido Rousseau, a necessidade de haver uma Educação. Daí, a necessidade de haver um conceito de Educação; a necessidade de estabeler-se um paradigma educacional, um conceito educacional.... numa época em que o conceito de Educação não existia.

E hoje? Já se encontrou esse conceito universal?
Será que só há um conceito?
Educar não é também ter em conta valores sociais, culturais, entre outros???
Porque se insiste então num conceito ocidental?
Porque se normaliza o conhecimento visando essa conceito ocidental?
Não será meramente um conceito anglo-americano?
Não será que se está a confundir Educação com ministério de saberes e aprendizagens?

A Educação começa em casa.

O problema põe-se na medida em que, por vezes, em casa não se cansam a ensinar, coisas elementares, tais como saber comportar-se em sociedade, com os seus pares.
A Escola passou então a não ser apenas um espaço de ministério sapencial, mas de socialização, de promoção comportamental, de aculturação, de aprendizagem, de auto-conhecimento, de formação para a higiene e saúde, para alimentação, o bem comer, o saber comer, o saber gerir o tempo, o saber ir às compras, conhecer regras mínimas de funcionamento da sociedade, da burocracia administrativa, o gerir os seus recursos económicos, saber abrir uma conta bancária, ler um documento de um seguro ou um contrato de trabalho, acompanhar ao médico, dialogar com pais, encarregados de educação, familiares, amigos, conhecidos, pessoas preocupados com o bem estar dos meninos, agentes sociais, entre outros, para solucionar ou minimizar situações de risco, de abandono escolar, de violência doméstica, de falta de orientação e de gestão dos recursos financeiros, falta de alimentação, de vestuário, de condições nas habitações, de abandono escolar (com conhecimento das autoridades que nada fazem) e de trabalho infantil (com conhecimento das autoridades competentes e... nada fazem, pelo menos com a celeridade exigida pela situação... crianças com 11 anos, por exemplo... quando se tenta solucionar ou remediar a situação, já a criança tem 16 ou mesmo 18 anos... morosidade... administrativa....)...
Não se esgota aqui tudo aquilo que me apetece dizer porque vivo na primeira pessoa ou partilho da preocupação dos colegas que sofrem, como eu, pelo facto de não conseguirmos resolver situações tão precárias.... e onde falha a educação, a de casa, a de berço, a dos primeiros anos da infância, aquela que todos nós temos direito ao nascermos...

Depois disto, apraz-me dizer que Educar é a mais dificil e a mais nobre das tarefas e apesar de todas as diligências nem sempre somos O Todo Poderoso.
Mas acreditem, melhoramos em muito a vida destas crianças inocentes e infelizes ou felizes à sua maneira.

Depois disto, tenho de confessar o quanto me dói assistir ao desrespeito e à desautorização pública dos educadores em geral e dos professores em particular, quando estes desempenham o papel de mãe, de pai, de irmão mais velho, de amigo, de confidente, de psicólogo, de médico, de assistente social... etc, etc... das crianças (e muitas vezes dos encarregados de educação também). Dói-me o insulto a todos quantos se dedicam de corpo e alma aos seus meninos (e não são seus filhos), quando privam os seus familiares de algumas horas para, voluntariamente, acompanharem os seus alunos a um médico, a um serviço público, entre outros; para irem a casa dos pais desses meninos; quando ao fim de um dia de trabalho ou ao fim de semana vão tratar de situações graves e /ou a reuniões, acções, visando o seu enriquecimento pessoal e/ou profissional, tendo sempre presente a importância da educação e como melhor educar... Quantas horas de trabalho? 25h? 30h? 40h?
Que visão tão positiva ou atentória têm da vida de um professor!

Deixem-me que vos diga, chego a passar 12h por dia no meu local de trabalho e trago sempre TPC. Nunca contabilizei de forma precisa, mas se há semanas em que se trabalha 40/50 horas, outras haverá que passarão as 70 ou 80 horas. Ora, se cada dia de trabalho deveria ter um máximo de 8horas e a semana não deveria ultrapassar as 40horas... é só fazer as contas e ver quantas horas (a mais) podemos dedicar e dedicamos ao nosso trabalho e aos nossos meninos.

P.S.1. Haverá vida depois da escola e do trabalho da escola?

P.S.2. Apetecia-me escrever muito mais mas... tenho um encontro marcado com mais de uma centena de testes do ensino básico e duas dezenas do secundário.

P.S.3. Cantarei até que a voz me doa.

A TODOS OS QUE QUEREM DIGNIFICAR A NOSSA CLASSE, A NOSSA VIDA E MELHORAR A NOSSA SOCIEDADE, UM BEM HAJA DO FUNDO DO CORAÇÃO.
Margarida

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