12 de agosto de 2008

A minha indignação

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Margarida

Sentir minimamente na pele...
Terça-feira, 12 de AgosTo de 2008 2:36

Andava há uns dias a pensar escrever sobre a situação abordada no texto e sobretudo nas imagens. Abri a página do Clix e foi a primeira "clicadela" que dei e depois vi as imagens, seguidamente pensei se devia escrever algo.
Aqui estou a escrever esse algo que nada mais é que sublinhar a negrito e com letras gigantes as legendas das imagens tal como expressões " a dança das macas", "corredores superlotados", sala de penso e de tratamento exígua, onde ao lado o médico e enfermeiros trocavam de turno e falavam de doentes e de quem ia jantar e onde, e de quem já não podia ir porque tinha que ficar na sala (poucos), etc, etc.
Há precisamente um mês vivi tudo isto no Hospital de Portimão. ( O tal que, soube na reportagem, tem apenas 9 anos e que constatei in loco que não tem condições para assistir às populações de metade do Algarve e do Alentejo , quanto mais aos milhares de turitas sanzonais). Já tentei descrever a amigos o interior das urgências: corredores estreitos e com ângulos incríveis, salas minúsculas, doentes de fita amarela em macas, sentados nas parcas cadeiras( 2/3 sem exagero) no corredor, na mini-sala dentro das urgências, na sala exterior (que devia ser reservada apenas a familiares) e alguns no próprio exterior das urgências, inclusive um senhor de idade desmaiou junto do segurança na entrada exterior, só assim, pelos vistos, foi mais prontamente assistido. Um rol bem grande, garanto-vos.

Médicos? Um ortopedista (pensava eu, pois vi-o sair de uma sala que dizia Ortopedia, mas depois de ler o vosso artigo já não sei), que respondeu arrogantemente a um doente que tinha entrado muito antes de mim e que se dirigiu ao médico nestes termos "Sr. Dr. estou aqui há tanto tempo... ninguém nos vê...", resposta do médico "Queixe-se aos meus colegas que estão aí, eu só cá venho uma vez por semana", ao que o paciente respondeu " Sr. Dr. não o tratei mal, apenas queria saber quando me atendem..." (boa resposta e muito educada, com o sotaque algarvio e de quem apenas se impacientava educadamente de estar há umas 5h, pelo menos, sem ser visto por ninguém). Outro médico? Sim, um espanhol, pelo menos o sotaque, que apareceu chamando um doente, vindo de outro lado, não sei de onde e que nunca mais voltou. Havia mais médicos? Sim, uma Dra Natália, russa ou ucraniana, simpática, educada, uma palavra amiga a quem se lhe dirigia, inclusive o senhor que referi acima e que se queixava do tempo que estava à espera e ao qual lhe respondeu, educadamente, que tinha razão, mas não tinham médicos suficientes. Ouvi a Dra dizer que eram só quatro no serviço. Infelizmente, soube pelos bombeiros, na ambulância, que tinham acabado de entrar quatro feridos de um acidente de viação e que se calhar ia demorar, o tempo de espera é que foi mais que demorado, estive 4 h sem ser vista por ninguém e tinha um traumatismo craniano, nada de grave, mas na altura não se sabia. Talvez estivessem nas outras urgências os outros médicos.

Enfermeiros? Nos corredores das urgências vi passar 3 ou 4 (muitas vezes nem olhavam para os pacientes, estavam apenas de passagem); sala de injetáveis: 1 enfermeira, e espaço minúsculo; sala onde me coseram (mas que não limparam bem o sangue, soube à posteriori, fiz imensos coágulos) e talvez seja também sala de tratamentos: 4 ou 5 enfermeiros, em mudança de turno.
Sala da Tac. 2 técnicos.
Funcionários de apoio: 3 ou 4 ( e uma delas estava a trabalhar noutro piso e cada vez que vinha às urgências lá ia dando uma ajuda).
Ficávamos nos corredores à espera que os funcionários tivessem tempo para nos levarem ou para irem buscar-nos para os exames, etc.

Não chega apenas a boa vontade.
É preciso PESSOAS para trabalharem e assistirem dignamente as pessoas, há minímos.

Passei 8h e tal nas urgências girando entre estes espaços. Vi pessoas de idade, a maioria, ali quase ao abandono.
Devo dizer que constatei que quem tem uma maca é um privilegiado apesar de tudo, pois pode estar lá dentro, ainda que as correntes de ar possam provocar gripes ou situações piores.

Um bem haja especial a uma funcionária que pensei de início ser espanhola, mas afinal era de leste, pelo nome da placa identificativa (disseram-me, não conseguia ler), pois foi ela um verdadeiro Anjo da Guarda para mim e para todos os que solicitavam a sua ajuda. Uma delicadeza para os velhinhos e uma voz doce, doce. Sem ela talvez tivesse ficado mais 4h e tal sem observação.
Mas quero destacar além dessa funcionária, a delicadeza de um jovem enfermeiro que tentou lavar-me o cabelo e libertar-me daquela massa de sangue e da já referida Dra Natália que me observou, não sei se era uma doente destinada a ela ou não, a pedido dessa jovem, bonita e doce menina de leste.

Apesar de tudo penso que todos tentam fazer o seu melhor mas não têm condições, nem físicas, nem humanas.

A sensação que tive era que aquilo não era um hospital a sério!


Um bem haja aos bombeiros de Portimão, pois os seus primeiros socorros foram fundamentais e de uma simpatia exemplar.
Obrigada por me deixarem partilhar a angústia que senti, sobretudo, por dezenas de pessoas idosas.
Margarida Graz.

P.S. Entraram dois pacientes ingleses enquanto lá estive e não estiveram muito tempo no corredor junto de mim...

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