12 de outubro de 2008

O nome da rosa

O Nome da Rosa, de Umberto Eco, adaptado pelo Fatias de Cá. Um projecto ambicioso mas bem concebido.

O Nome da Rosa, romance famoso do não menos famoso escritor-filósofo-ensaísta-linguísta-sociólogo italiano Umberto Eco. Adapatdo ao cinema em 1986, por Jean Jacques Annaud, realizador notável, contando na personagem principal com o distinto Sean Connery, o filme ajudou a popularizar esta bellíssima obra (synopsis en français).

Fatias de Cá iniciou a sua actividade em 1979, tendo hoje diversos centros de produção em Portugal e também Marrocos e Bulgária. É, sem dúvida, um projecto em constante renovação, colocando-se numa outra dimensão do conceito teatral, ainda tão clássico no final do século XX, apesar de conceitos inovadores e alternativos como o Open Air Theatre (em estádios, campos, ruínas, antigos teatros gregos e/ou romanos, praças de cidades/vilas...); o Teatro do Absurdo, de Ionesco, ... Não há lugar às três regras clássicas: espaço, tempo, personagem. Pode ou não haver um equilíbrio entre a história, o espaço e o tempo. Pode ou não haver cenários. Por vezes, o actor-personagem basta-se a si mesmo para criar uma história, num espaço vazio e sem tempo. O espaço cénico/palco e público, têm papéis diferentes ou similares. São novos conceitos ou recriações de acordo com um mundo que muda e que nem sempre aceita grandes mudanças.

O Fatias de Cá situa-se, em minha opinião, nestes novos conceitos da arte dramática.

A peça desenrola-se em diversas partes do Convento de Cristo, Tomar: claustros vários, sala do capítulo, charola, junto à famosa janela manuelina, refeitório, cozinha, sala das talhas, sala do forno, sala das cortes, sótãos, salas diversas, alas das celas dos monges, corredores labirínticos, capela principal, capela exterior sem telhado que, graças à lua, contrastava o negro das pedras com um fundo de um luar levemente nebulado, criando uma auréa de um misticismo maior... Sobem-se e descem-se escadas dezenas de vezes, quase às escuras. Perdemos o conto aos degraus pois nem sequer os contamos, o que interessa é seguir Guilherme de Baskerville (Carlos Carvalheiro, também o encenador), o téologo imperial franciscano encarregue pelo abade de investigar uma misteriosa morte de um monge copista e que, com o jovem monge-aprendiz Adso (Ricardo Zeferino) se vê envolvido num trama maior que o esperado. Seguem-se mais seis mortes, todas elas misteriosas. Cenas movimentadas: morte, medo, poder. Discussões acesas entre os dominicanos e franciscanos, num convento beneditino. A luta pelo poder e pela protecção do Papa de Avinhão, opondo-se ao Papa de Roma, figura ausente da trama, mas presente no espírito ideológico-religioso da época. Tentativa vã de evitar sismas ou heresias. Época difícil em que o poder estava do lado da força das armas e dos maliciosos, argutos, malélovos e inteligentes, fossem religiosos ou príncipes, amigos ou não. A luta pelo poder foi forte e feia. Matava-se, roubava-se... Deus era a inspiração e em nome de quem se cometia tanta barbárie. Talvez alguns acreditassem piamente naquilo que defendiam e, por isso, lutavam em nome de Cristo com toda a energia e fé, enquanto que outros, houve-os em todos os tempos, os oportunistas, os intisgadores, os cabecilhas, sugeriam, ordenavam, mas raramente manchavam as mãos de sangue.

Mas tudo isto será passado???

A peça teve oito momentos - oito trombetas apocalípticas: granizo(morte), sangue(morte), água(morte), estrelas(morte), escorpiões, enxofre e mel. Entre cada uma delas regressávamos ao refeitório para com os monges partilharmos momentos de oração e de refeição claro, muito mediavalesco: frutos secos, partidos com uma pedra; tostinhas de queijo e ervas aromáticas; canjinha de galinha bebida numa tijela de barro (esperemos que não fosse a galinha que o Salvador, ajudante do dispenseiro, usava em rezas tão pouco cristãs, lol); arroz no forno com galinha (a da canja ihih) e couves cozidas; bolos simples, quase medievais e vinho tinto quente açucarado com sabor intenso de canela (uma verdadeira delícia) e, no fim da peça, café da avó uma uma Fatia de Tomar ou Fatia de Cá, cujo doce regional deu nome ao grupo.

O lema deste grupo é uma frase atribuída a Galileu "Não resistimos nem a uma ideia nova nem a um vinho velho."

P.S. Foi uma forma diferente de comemorar mais um ano de vida de uma grande amiga, não foi Isabel? (Apesar da malta se ter esquecido... snif snif). Jinho grande.

1 comentário:

Anónimo disse...

E que sorte a minha de ter amigos que me convidam a partilhar momentos destes! Obrigada. Foi inesquecível! L.C.